Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016 às 13:21 Postado por A COZINHA DOS QUILOMBOS História dos Quilombos

Quilombo Caveira Botafogo São Pedro da Aldeia, Região das Baixadas Litorâneas

Quilombo Caveira Botafogo São Pedro da Aldeia, Região das Baixadas Litorâneas

Roberto dos Santos, de 58 anos, presidente da Associação da Comunidade Quilombola de Caveira Botafogo, guarda, com zelo, um acervo documental constituído por artefatos escritos e por relatos orais. Em uma ensolarada tarde, na varanda de sua casa, contou sobre a origem do nome da comunidade: “[...] os escravos vinham pelo oceano e atracavam aqui pela praia Rasa, no rio Una. Aí, vinha pelo rio Una de canoa e iam pra fazenda Campos Novos a fazenda Campos Novos [...] e como os escravos já viam de lá debilitados do longo tempo no mar [...] Nesse longo trajeto, eles já chegavam aqui debilitados, morriam, aí morriam e ficavam ali aquele esqueleto, aquela caveira”.

Atualmente, no espaço que, no século XVII, era parte integrante da fazenda jesuíta Campos Novos vivem 160 famílias. Em 1998, o grupo foi reconhecido como remanescente de quilombo e, desde então, tem lutado para obter o título definitivo das terras em que habitaram seus antepassados.

A respeito do legado culinário, Claudineia dos Santos Silveira, de 42 anos, é um indicativo de como as novas gerações vêm atualizando os saberes construídos pelas gerações anteriores. Claudineia trabalha na secretaria da escola e inventou, recentemente, junto com uma colega de trabalho, uma receita que vem se tornando conhecida dentro e fora da comunidade. Sobre o processo de criação, narra: “[...] a gente ia fazer uma festa aqui, que ia participar de uma festa, que todo ano Cabo Frio faz a festa da farinha, e a escola ia colocar uma barraca lá na festa e se faz com todo prato de mandioca. Aí, eu sentada, eu e a colega que gosta da cozinha [...] então, nós pensamos: vamos fazer um caldo. Mas o quê? Vamos inventar um caldo? Vamos! E aí começamos, papel e lápis na mão, e começamos a montar o caldo”.

Na ampla cozinha da casa de seus pais, Claudineia preparou o caldo quilombola. Nesse ínterim, Seu João e Dona Almerinda, de 72 anos, destacavam a importância da terra para a culinária das gerações passadas. Dona Almerinda comenta: “[...] que a gente não comprava feijão, nosso feijão aqui durava de um ano pro outro. A gente fazia aquele feijão, era feijão, guando. Era... era que mais? Aipim, fava, batata doce. Ah!, sim, a gente tinha também horta, couve, essas coisas. A gente quase não comprava nada, mas hoje compramos tudo”.

Como se pode notar, essa família constitui um excelente exemplo de como as antigas práticas culinárias, ao serem atualizadas pelas novas gerações, mantêm vivas as tradições entre os indivíduos.