Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016 às 14:45 Postado por A COZINHA DOS QUILOMBOS História dos Quilombos

Quilombo do Cruzeirinho Natividade, Região Noroeste Fluminense

Quilombo do Cruzeirinho Natividade, Região Noroeste Fluminense

O milho, que significa sustento da vida na tradição milenar mesoamericana, destacou-se nas receitas do fubá suado e do angu doce, pratos típicos do Quilombo do Cruzeirinho, situado no Município de Natividade. Esse quilombo é assim denominado porque, no passado, existia um cruzeiro próximo à antiga Igreja de São Pedro, perto do qual as pessoas acendiam velas com intenções religiosas. Contemporaneamente, dentro do quilombo, vivem cerca de 37 famílias, as quais se dividem entre as tradições religiosas evangélica e católica. De certa forma, o apego a casa, terra, território e costumes alimentares, com destaque para os derivados do milho, atualizam a narrativa do sagrado para esse grupo.

Em tempos atuais na comunidade, chama atenção o fato de as casas dos moradores situarem-se à beira da Rodovia RJ-214, a qual, em com sua coloração grafite típica de asfalto, contrasta com a paleta de cores existente em Cruzeirinho, como, por exemplo, o verde e o terracota predominantes na paisagem desse lugar. Nesse cenário, a rodovia e a rua misturam-se, bem como os veículos e os pedestres partilham espaços em uma paisagem tipicamente rural. 

Apesar de dispor de espaços reduzidos para moradia e pequenos cultivos, os moradores ocupam o território de forma criativa. Por isso, Juanice (38 anos), presidente da Associação da Comunidade Remanescente do Quilombo do Cruzeirinho, destaca a importância de regularizar a situação fundiária do grupo, como um meio de manutenção de práticas tipicamente camponesas. Todavia, enquanto essa situação não se altera, as pessoas permanecem improvisando, como exemplifica Juanice: “Tem um terreno aqui da prefeitura mesmo, que essa menina mesmo, Elizabete, que tá fazendo o fubá, ela planta lá em cima. Hoje mesmo ela desceu de lá, trouxe mandioca, os milhos, né? Aqui mesmo na comunidade.”

Assim, Juanice destaca as formas como o milho era consumido em sua família: “A gente comia, era assim, né? O fubá suado, né? Época de milho, a vovó fazia pamonha do milho verde, que ela ralava o milho, botava açúcar ou sal e fazia os dois sabor e colocava dentro de uma palha de bananeira e amarrava as duas pontas e botava pra cozinhar [...]. Angu mesmo com açúcar, né? E colocava uma canela ou um cravozinho pra dar um gostinho e era alimentação que ela dava pra gente.”

Para Juanice, não há como esquecer um prato que atravessara sua infância: “Sempre ficou na minha memória isso, que minha vó, ela ficava comigo, que era mais velha, meus outros dois irmãos, tinha uma sobrinha que ela criava. Numa época de calor grandão de janeiro, ela tinha um bacião grande, aí ela enchia aquela bacia de água e botava a gente pra tomar banho e ela foi fazer o fubá suado pra gente [...]. Quando ela foi fogar o tempero com pressa, a minha outra irmã afogou na bacia, aí ela jogou rapidinho [o fubá] e o fogo subiu no braço dela. Aí [ela] queimou, deu queimadura de terceiro grau no braço dela, porque fazia quantidade grande porque era muito menino, né? [...]. Então, são coisas que fica marcado [...] são coisas que ficam na lembrança.O quilombola não é só ser negro, ele tem que se autoidentificar.”