Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016 às 15:18 Postado por A COZINHA DOS QUILOMBOS História dos Quilombos

Quilombo Campinho da Independência Paraty, Região da Costa Verde

Quilombo Campinho da Independência Paraty, Região da Costa Verde

O Quilombo Campinho da Independência é parada obrigatória para aqueles que visitam Paraty, região da Costa Verde, litoral sul do Estado do Rio de Janeiro. No roteiro turístico, além de uma visita guiada pelo território do quilombo, que mescla ecologia e história, os visitantes têm a oportunidade de experimentar, no restaurante da comunidade, uma  gastronomia caracterizada pela sutileza, pela intuição e pelo esmero no preparo das refeições. Não por acaso, inaugurado em 2007, esse espaço acumula quatro prêmios: Guia
Comer e Beber (2008); Guia Garfo de Ouro (2013); Gastronomia Sustentável (2013); Guia Quatro Rodas (2013). Ademais, os turistas, ao saborearem as especialidades do cardápio, defrontam-se com uma culinária típica, relacionada às práticas tradicionais e produzida de forma sustentável, sendo geradora de renda para as famílias quilombolas e caiçaras da região.

A narrativa a respeito da posse da terra pelo grupo relaciona-se à história de doação da Fazenda de Campinho pelos antigos senhores a três ex-escravas da casa-grande: vovó Antonica, tia Maria Luiza e tia Marcelina.

Vagner, Presidente da Associação dos Moradores de Campinho (AMOC), relaciona a receita aos projetos futuros da comunidade: “Mas acho que um dos propósitos do restaurante é, aos poucos, estar resgatando, trazendo essas receitas, tanto pras nossas mesas, que é pra recuperar a história, os modos de vida, que linkar com território e tudo isso que a gente tá falando. Tem muito isso dessas receitas ligadas ao uso do território.” O azul marinho, prato disputadíssimo do cardápio, também suscita outras lembranças, de acordo com as explicitações de Cirlene, uma das responsáveis pela cozinha: “Azul marinho é um peixe que usa muito também. Antes se usava muito, porque não tinha o tomate, não tinha o pimentão, né? Então, ia no rio e pegava o peixe, né?” 

Já a moqueca à moda quilombola, invenção atual criada especialmente para o restaurante, é um exemplo prototípico dos diálogos estabelecidos entre a tradição e os desafios contemporâneos de sustentabilidade. Pode-se mencionar o palmito pupunha, que atualmente é utilizado na receita da moqueca, enquanto, no passado, se consumia o palmito juçara. Iguarias tão comuns que aparecem no cancioneiro do jongo.

A respeito da necessidade da substituição do palmito juçara pelo pupunha, Vagner explica: “A gente tá reflorestando, produzindo juçara pra ter a poupa do juçara, ao invés de cortar a palmeira pra tirar o palmito. E a juçara é uma espécie ameaçada de extinção. [...] E a culinária, ela tem esse papel também, tanto de debater a questão territorial e tal quanto às sementes tradicionais e da riqueza. Isso passa pelo milho, passa pela taioba e tantas outras espécies ou produtos que a gente usava muito [...]. A gente precisa resgatar na nossa mesa.